Adolescência: como lidar?

Adolescência: como lidar?

A adolescência muitas vezes causa uma série de dúvidas e questionamentos nos pais que se deparam com uma fase nova na vida dos filhos. O(a) filho(a) que até então compartilhava tudo sobre a sua vida e viam os pais como seus melhores amigos e heróis, passam a trocá-los, muitas vezes, pela companhia de outros amigos, balada ou ao total isolamento. Esses e outros comportamentos geram alguns conflitos nos pais que não sabem como lidar ou agir em determinadas situação. Para isso, essa série visa orientar os pais sobre quais são os comportamentos/atitudes esperados e o quais são os sinais de alerta nesta fase, bem como a forma de lidar de maneira eficiente diante essa etapa e perante os filhos adolescente no Japão.

Para iniciarmos o assunto precisamos entender duas coisas essenciais. A primeira delas é sobre do que se trata a adolescência e a segunda é a diferença entre os adolescentes de hoje com os de antigamente.

Em relação a primeira questão, podemos definir, de modo geral, a adolescência como um período de transição entre a infância e a vida adulta que segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) vai dos 10 aos 19 anos de idade, já a Organização das Nações Unidas (ONU) denomina de pré-adolescência a fase que vai dos 10 aos 14 anos, adolescência entre 15 e 19 anos e juventude doa 15 aos 24 anos, por sua vez para o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) no Brasil, considera-se adolescente aquele que tem entre 12 e 18 anos. No entanto, não devemos nos prender essencialmente a questão cronológica (tempo/idade), pois cada ser humano se desenvolve de modo singular de acordo com o seu tempo.

A adolescência é um período sobretudo marcado pela situação marginal, pois não são mais crianças, mas também ainda não são adultos. Esse lugar de indefinição faz os adolescentes em alguns momentos terem comportamentos infantis e em outros exigirem que os tratem como adultos, gerando uma constante crise de pertencimento e identidade. Outra característica marcante é o início da Puberdade, termo utilizado para denominar às mudanças biológicas, comportamentais e fisiológicas que ocorrem nessa fase, sendo essas mudanças que despertam a atenção dos pais e gerem uma série de comportamentos diferentes que são rotulados por alguns como o período da “aborrescência”. É importante desconstruir a visão da adolescência apenas como uma fase de crise, intolerância, irresponsabilidade, rebeldia, preguiça, etc. e compreender o que está por trás desse conflito, hormônios e/ou comportamento.

Como segundo aspecto a ser compreendido, é importante os pais entenderem que os tempos mudaram e que as experiências vivenciadas na sua época da adolescência não são as mesmas de hoje, pois a sociedade mudou e as influências e estímulos que seus filhos estão inseridos são outras. Hoje os adolescentes estão expostos a muitas influências negativas como drogas, álcool, sexo precoce, criminalidade e violência, algo que existia na época dos seus pais, mas não com a intensidade e facilidade de hoje em dia.

Isso não impede, no entanto, dos pais se colocarem no lugar do filho, buscando pensar da forma como ele pensaria nas mesmas circunstâncias, o que chamamos de empatia, e tentar entender o que eles estão passando sem querer comparar a sua experiência com a deles, pois elas são singulares e diferentes. Faça o exercício constante de lembrar, e não comparar, como foi sua adolescência: “o que sentia? O que pensava? O que queria? Do que tinha medo?” etc. e tente compreender um pouco o que o seu filho sente hoje em dia. É um exercício fácil, então vamos começar? “A capacidade de se colocar no lugar do outro é uma das funções mais importantes da inteligência. Demonstra o grau de maturidade do ser humano” (Augusto Cury).

Até então, vimos alguns aspectos relacionados a adolescência, sendo esta uma fase de transição, marcada por mudanças biológicas, comportamentais e fisiológicas, caracterizada pela marginalidade de não pertencimento nem a fase adulta ou infantil e a importância de os pais criarem sentimentos de empatia perante o filho para uma aproximação saudável.

Agora, iremos abordar os sentimentos, mais comuns, vivenciados pelos adolescentes e como esses impactam e influenciam seu modo de ser e estar no mundo. Como tais sentimento podemos citar:

onipotência ou inferioridade, pertencimento ou isolamento, conflito de identidade, indecisão/ambivalência e intensidade.

O sentimento de onipotência está relacionado a sensação de “tudo poder”. É comum nessa fase o adolescente se sentir revestido de poder para conseguir tudo o que quer, mesmo que para isso precise burlar uma regra combinada anteriormente com os pais. Isso não os deixa incomodado, pois a necessidade de rebelar-se e transgredir as normas faz com que os riscos e desafios sejam vistos como um caminho atraente para o adolescente. Assim, para assegurar o seu espaço ou demonstrar que os pais já não mandam mais neles, sendo “donos do seu nariz”, eles têm facilidade de alimentar fantasias que não conhecem limites.

Outro sentimento que vai contra ao citado anteriormente é a inferioridade. Alguns adolescentes, com a autoestima baixa, tendem a se sentir inferior aos outros e muitas vezes submisso. A autoconfiança é algo que vai sendo construído gradativamente ao longo da vida, e caso ela não tenha sido bem construída ou minada pelos círculos sociais o qual o adolescente faça parte, ele tende a se isolar e desenvolver a inferioridade e baixa autoestima.

O terceiro sentimento característico da adolescência é a necessidade de pertencimento a algum grupo. Quando chega a puberdade, o adolescente não se contenta mais apenas em fazer parte do grupo familiar, buscando outros espaços ou referências fora de casa para se formar como sujeito. É por isso que a opinião dos pais passa a não valer e a opinião dos amigos crescem em importância. Por meio do grupo de amigos, o jovem exercita papéis sociais, se identifica com comportamentos e valores. O oposto disso é o isolamento. Justamente por não encontrar o seu grupo de pertencimento, ser excluído ou rejeitado pelo mesmo, há jovens que se isolam. Normalmente são adolescentes tímidos que não conseguem ter a iniciativa de construir vínculos e se inserir em algum grupo ou os adolescentes que fogem muito dos padrões esperados e acabam sendo excluídos.

Outro sentimento vivenciado é o conflito de identidade. Este é mais visível e comum nesta fase. Esse conflito gera uma ambiguidade de sentimentos no adolescente, hora adotando uma postura infantil e hora adulta. Essa ambiguidade de identidade vai se revezando conforme o interesse do adolescente e como ele se vê mediante determinada situação. Vale lembrar que a passagem para a vida adulta ao mesmo tempo que é sedutora, pelas possibilidades, é angustiante pelas renuncias, e isso é vivido intensamente pelo adolescente.

Outro aspecto que vale ser mencionado é a indecisão ou ambiguidade de sentimentos e comportamentos vivenciados nessa fase. Justamente por haver um conflito de identidade, o adolescente muitas vezes se torna indeciso em suas escolhas (devo escolher o que um adulto escolheria ou uma criança?) e uma ambiguidade de sentimentos (hora amando os pais e hora odiando-os). Pelo fato também de querer tudo (sentimento de onipotência), as vezes fazer determinadas escolhas se torna uma tarefa difícil e árdua, precisando ser respeitado.

Por último, podemos citar o sentimento de intensidade. Costumamos dizer que com os adolescentes não existem meio termo, pois eles vivem e sentem tudo da maneira mais intensa possível. Esse modo de viver intensamente tem um pouco haver com hormônios que estão a flor da pele, mas também pelo sentimento de “agora posso tudo”, recém adquirido com a idade. Assim, um término de namoro pode virar o fim do mundo e uma simples discussão com os pais pode gerar um sentimento de ódio mortal. A boa notícia disse é que para eles nada tem uma longa duração e logo esses sentimentos são esquecidos ou substituídos por outros.

Todos os sentimentos citados são comuns e esperados na fase da adolescência, não havendo motivos para se preocupar. No entanto, caso o seu filho não manifeste alguns desses comportamentos ou se o manifestam de maneira muito intensa e incisiva, devemos olhar com mais cuidado a fim de identificar outras questões.

Por hora, vale refletir: quantos desses sentimentos citados você consegue identificar no seu filho? E como lidar com eles? É o que veremos no próximo capítulo.

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