Infância em tempos de pandemia.

Um dos meus personagens favoritos (em um dos meus livros favoritos) diz que: “Uma das armadilhas da infância é que não é preciso compreender para sentir. Na altura em que razão é capaz de compreender o sucedido, as feridas no coração já são demasiado profundas”.

Nesse período de pandemia/quarentena, diante de um cenário completamente novo, me peguei pensando nessa frase e, pela primeira vez, questionando se Fermín (esse companheiro literário), continuaria achando tal retórica como uma verdade.

Em frente ao isolamento social, tanto pessoal quanto o compulsório, diante do fechamento de escolas e outros meios sociais que as crianças costumam frequentar, o número de procura por ajuda de cuidadores a respeito de seus filhos cresceu no consultório.

Dúvidas sobre como explicar os eventos atuais, medos e ansiedades a respeito das consequências que o isolamento pode causar nos pequenos, queixas acerca de comportamentos antes nunca notados, e por vezes vistos como pervasivos, a “má-criação” e a notada ansiedade infantil, foram temas frequentes no setting psicoterapêutico.

O isolamento social, por si só, já é uma condição que vai de encontro a uma das características selecionadas por nossos antepassados, e que foi marco principal para a evolução da nossa espécie, o “juntos venceremos” das respostas filogenéticas: socialização entre pares.

Sendo assim, dentro do nosso cérebro primitivo, em uma estrutura chamada núcleo accumbens, responsável pela sensação de prazer ocasionada através de situações sociais preestabelecidas (busca por comida ou por companhia), é acionado um sistema de recompensa que em muitas atividades acaba regulando e controlando nosso comportamento.

Por exemplo, sem contato social, mais pessoas acessaram vídeos em plataformas digitais do que o fariam em situações diferentes, ou acabaram fumando mais cigarros do que normalmente o fariam. A procura pelo contato, agora escasso, nos leva para um desequilíbrio emocional onde a desorganização psíquica nos encaminha para outras respostas pré-selecionadas da espécie: fuga (sair do isolamento) e esquiva (alimentando o núcleo accumbens com todos os distratores não naturais).

Se tudo isso ocorre dentro do nosso corpo e mente, mesmo sendo adultos e tendo a total compreensão dos porquês e motivos do isolamento social, imagine o que ocorre dentro do mundo cheio de fantasia dos pequenos.

Mesmo não entendendo a fundo os mecanismos biológicos por trás do isolamento social e seus benefícios, com seus olhos de ver e ouvidos de ouvir, as crianças são capazes de absorver grande parte do que acontece no mundo adulto, e, assim como nós, diante de uma situação nova e desafiadora, enfrentam um desequilíbrio psíquico entre corpo e mente no processo de elaboração. Portanto, elas não necessitam compreender para sentir o mundo ao seu redor, por isso certos comportamentos nunca antes emitidos, ou emitidos em baixa frequência, aparecem com mais constância, como birras, manhas e comportamentos desafiadores.

Apesar de gostar muito do meu amigo literário na maioria de suas falas, discordo com ele em parte nessa frase. Muitas vezes nas atribulações diárias da vida adulta, ainda mais em um processo onde a incerteza mistura com medo e a ansiedade de uma pandemia mundial, esquecemos que fomos e ainda somos em parte crianças, num processo constante de sentir o mundo sem muitas vezes sermos capazes de compreendê-lo.

Portanto, nesse momento incerto, no entanto cheio de esperanças, convido a todos tentarem entender os pequenos de seu lar com o olhar da criança que ainda têm dentro si, buscando compreender o sentir deles da mesma forma que buscamos o nosso, uma vez que ferida no coração nenhuma é profunda o suficiente para escapar de um diálogo e acolhimento. Crianças ou não.
Tudo é processo! E estamos todos juntos nessa.

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