Psicanálise – Um convite a reinventar-se

Muitos de nós passamos uma vida represando palavras e contendo nossos afetos. Eventos traumáticos e impasses inerentes ao estar no mundo geram em todos nós inevitavelmente alguma espécie de defesa, a nível inconsciente, a fim de nos protegermos e evitar de nos frustramos ao longo de nossas vivências e laços afetivos.

Porém, a busca de uma vida indolor e imbatível pode tornar uma existência incolor, insípida e solitária. Essas “defesas”, entendidas como um conceito muito importante em psicanálise chamado de resistência, em alemão Wierderstand, termo cunhado por Freud, remete às ocasiões onde o analisando resiste ao tratamento, cria empecilhos e se desdobra para não abrir mão de suas queixas. Segundo Elisabeth Roudinesco, historiadora e psicanalista francesa, as resistências são “o conjunto das reações de um analisando cujas manifestações, no contexto do tratamento, criam obstáculos ao desenrolar da análise”.

A resistência tem sua legitimidade e carrega em si um propósito, o de nos preservar de algo que dói, aquela experiência que preferimos colocar dentro de uma caixinha, trancar, jogar a chave fora, guardar bem longe e nunca mais olhar. A já conhecida frase do criador da psicanálise, “As emoções não expressas nunca morrem. Elas são enterradas vivas e saem de piores formas mais tarde…” remete justamente à ideia de nos expressar para não adoecer. Pânico, fobias, inseguranças, crises agudas de ansiedade, TOC, insônia, tais sintomas manifestos corriqueiramente vistos na clínica, podem-se dizer – excluindo-se causas comprovadamente orgânicas – são causados pelo acúmulo de palavras não ditas.

Certa vez, ouvi de uma sábia psicanalista a seguinte frase: “Todo analisando tem direto a legítima defesa e toda defesa é legítima” diante de uma profunda nunca tocada dor causada por um trauma ou um luto, por exemplo. Cada um tem seu tempo de se aproximar aos poucos e começar a tatear com delicadeza naquela ferida não cicatrizada. Cada analisando tem seu ritmo próprio, e no processo analítico, há uma ética que respeita esse tempo subjetivo que cada um de nós precisamos para se entrar em análise.

Diante muitas vezes de sintomas paralisadores, não é incomum que muitos analisandos cheguem à clínica mergulhados em dúvidas e esperam que seu analista os ensine uma receita de bolo que faça parar de doer, como se a cada sessão procurassem comprar pedaços de respostas prontas como se compra uma cartela de analgésico no balcão da farmácia.

“Devo me separar?” “Devo aceitar essa proposta de emprego?” “Deveria ter filhos agora ou mais tarde?”.

A condição do trabalho psicanalítico, jamais será a do analista ofertar respostas, mas sim caminhar junto convidando o analisando a uma investigação na qual ele se sinta cada vez mais capaz de formular perguntas imprescindíveis sobre sua própria existência e se sinta à vontade e instigado a fazê-lo cada vez mais.

Estamos falando aqui sobre a posição do analista como aquele que provoca um fazer pensar, não um pensar qualquer, mas sim um pensar mais consciente acerca da formulação de perguntas que nos levam na direção do desejo, sim, o desejo, não a demanda do outro, mas sim o seu próprio desejo.

A quem tem interesse e coragem de embarcar em uma jornada acerca de um processo que evoque indagações acerca de si mesmo, sem garantias de resoluções prontas, mas com uma aposta em reinvenções, faço um convite à psicanálise.

O pensar sobre si faz com que nos situemos diante de nossas próprias singularidades e que compactuemos cada vez menos com armadilhas que nos enredam em uma existência pouco autoral, tanto em nossas vidas privadas quanto na vida em sociedade.

Se permitir ter consciência sobre si mesmo, se encarar em suas próprias contradições e se responsabilizar por suas próprias escolhas e afetos, é libertador e revolucionário pois nos permite nos destacar da massa que diz o que fazer, para onde ir e que experiências comprar, a mesma massa que pretensa e ilusoriamente se coloca como sabedora dos desejos de cada indivíduo.

É não permitir mais que aquele papel que interpretamos durante uma vida inteira, que, diga-se de passagem, pretende agradar mais o outro que a si mesmo, e que sempre machuca e diminui, não seja mais somente a única escolha.

Na clínica tenho o privilégio de observar o desaguar das palavras represadas, dando espaço para o nascimento de algo novo. A psicanálise é isso, é dar voz àquilo que deseja emergir. É permitir-se finalmente a dar voz ao que fazemos força para abafar.

“Para Lacan o analista é como um editor.
Você chega com um texto e sai com outro.
Mas o analista não escreve o texto:
ele tira uma virgula, põe um ponto,
realça uma palavra, corta.
O texto é seu, mas é ele quem edita.”

Pfeil, C. In: Diário de um analisando de Paris. p.108
Referência: Dicionário de psicanálise, Roudinesco & Plon, Ed. Zahar, 1998, p. 659

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